Arquivo da tag: poesia

1,3 quilo por metro cúbico de poesia

aaa
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

(Carlos Drummond de Andrade)

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em 1.3 quilo por metro cúbico de poesia

1,3 quilo por metro cúbico de poesia

Enquanto te enterravam no cemitério judeu
de São Francisco Xavier
(e o clarão de teu olhar soterrado
resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo
as pedras e as nuvens e as árvores 
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós

[Ferreira Gullar ]

Deixe um comentário

Arquivado em 1.3 quilo por metro cúbico de poesia

’80 Anos de Poesia’ de Mario Quintana

Olá! Esta semana terminei a leitura de uma antologia, publicada pela Editora globo, em homenagem aos 80 anos do poeta gaúcho Mario Quintana. E vim contar minha experiência.

Minha edição de ’80 Anos de Poesia’ de Mario Quintana, pela Editora Globo.

Este foi o meu primeiro contato com um livro de poesias do Mario Quintana, e posso dizer que nosso encontro foi bastante agradável. O livro é curto, são 171 páginas de muita sensibilidade.

Não sei informar tecnicamente a qualidade da organização, se o trabalho de seleção das poesias, cartas, textos e citações é digno ou não, subjetivamente confesso que gostei, mas sem exageros. Acho que dei 3 estrelas no skoob, talvez porque eu ainda seja calouro no quesito poesia, não costumo ler muito do gênero.

Quero deixar aqui, 3 sonetos que destaquei enquanto estava lendo o livro. A sensação que eu tive enquanto os lia, era de estar boiando de olhos fechados em um mar bem calmo, passei a flutuar dentro de mim e a afundar, de verdade. O peso das palavras me levaram a uma profundidade de reflexão incrível, uma insustentável leveza deliciosa. É reflexivo, é controverso.

Da vez primeira que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha…
Depois de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha…

E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada…
Arde um toco de vela amarelada…
Como o único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões de estrada!
Ah! desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!

 

(Para Moysés Vellinho)

Minha morte nasceu quando eu nasci…
Despertou, balbuciou, cresceu comigo…
E dançamos de roda ao luar amigo
Na pequenina rua em que vivi

Já não tem mais aquele jeito amigo
De rir que, aí de mim, também perdi
Mas inda agora a estou sentindo aqui,
Grave e boa, a escutar o que lhe digo:

Tu que és minha doce prometida,
Nem sei quando serão nossas bodas,
Se hoje mesmo… ou no fim de longa vida…

E as horas lá se vão, loucas ou tristes…
Mas é tão bom, em meio às horas todas,
Pensar em ti…saber que tu existes!

 
A ciranda rodava no meio do mundo,
No meio do mundo a ciranda rodava.
E quando a ciranda parava um segundo,
Um grilo, sozinho no mundo cantava…

Dali a três quadras o mundo acabava.
Dali a três quadras, num valo profundo…
Bem junto com a rua o mundo acabava.
Rodava a ciranda no meio do mundo…

E Nosso Senhor era ali que morava,
Por trás das estrelas, cuidando o seu mundo…
E quando a ciranda por fim terminava

E o silêncio, em tudo era mais profundo,
Nosso Senhor esperava … esperava…
Cofiando as suas barbas de Pedro Segundo.

 

ps:. Mario Quintana tem uma tara por nuvens, verás.
Por hoje é isso!
Até mais ;)

2 Comentários

Arquivado em Leituras Concluídas

1,3 quilo por metro cúbico de poesia


(…)
Só a leve esperança em toda a vida
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

[Vicente de Carvalho]

Deixe um comentário

Arquivado em 1.3 quilo por metro cúbico de poesia

1,3 quilo por metro cúbico de poesia #1

Image

De poetas

Ainda hoje existe honrada e boa gente
Que pensa que ser poeta é coisa muito feia
Muito rico burguês, que vive honestamente
e que aconselha á filha ingênua que não leia

-Sim, tu não deves ler, donzela. Ainda está cheia
De sonhos de criança, a tua alma inocente…
E os poetas são o diabo – e se lhes dá na veia
Dizerem coisas más, dizem-nas claramente!

Mas eu que já perdi na estrada da existência
Nos abismos letais do ódio e do pecado
Os sonhos virginais e os lírios da inocência

Eu prefiro, alma ingênua, a todo o peregrino
Tesouro sem igual do teu pai honrado
Um poema lapidar, um verso alexandrino.

[Alceu Wamosy]

Deixe um comentário

Arquivado em 1.3 quilo por metro cúbico de poesia