Romance de maus costumes

Minha edição de ‘O Dia das Moscas’ de Nei Leandro de Castro, pela Jovens Escribas.

Não tenho tanta dimensão da forma como o Paraná é visto pelos outros estados, mas imagino que o Sul em geral passe a ideia de um lugar com temperaturas mais baixas e tal. Mas, a situação na verdade é bem diferente. Pode-se até afirmar isto no inverno, mas o verão não é diferente de qualquer outro por aí. O fato é que está quente pra baralho muito calor, e isso é muitíssimo desestimulante. Dados os devidos motivos pelos quais as minhas impressões de leitura a cerca de ‘O Dia das Moscas’ de Nei Leandro de Castro está sendo postada mais de uma semana depois que as suas 154 foram lidas; vamos ao que realmente interessa.

Esqueça a história, preste muita atenção nesta escrita. É brincadeira, o enredo é ótimo e narra as muitas gerações de uma família potiguar. A quantidade de personagens é grande, mas os seus respectivos nomes são tão marcantes, quase “mia coutianos”, que o reconhecimento dos mesmos é natural. O livro é repleto de mulheres parideiras, índias, situações originais, reais e fantásticas. A escrita do autor é algo a ser tratado com muito respeito, as palavras parecem garimpadas, escolhidas a dedo. De fato, uma narrativa muito curiosa e distante de qualquer outra conhecida na literatura nacional.  Sem nem um resquício de dúvidas, uma das melhores leituras do ano.

Podem perceber que se comparado com os anteriores da mesma categoria, este post ficou bastante curto, pouco falei sobre o livro até o momento, e pelo que parece vou acabar por aqui, não sai mais nada. É engraçado perceber que em um livro mediano, equivalente a 3 estrelas aproximadamente, eu colo milhares de post it’s e faço mais milhares anotações. Agora, quando um texto te tira do chão, te sacode de jeito e meche de verdade com você, a coisa trava, faltam adjetivos e comentários. ‘O Dia das Moscas’ me deixou assim, vazio. A ideia inicial era copiar o texto da orelha do livro aqui, deixar que outro alguém falasse por mim, e acredito que deveria tê-lo feito, exclusivamente. Ainda assim, digitei algumas palavrinhas, mesmo sabendo que minha parcialidade, neste caso, vela quase nada, pois nem existe mais. Impossível é ler a orelha e não se desfazer de curiosidade pela história. Minha última conjugação, leiam!

Texto da orelha do livro ‘O Dia das Moscas’ de Nei Leandro de Castro, escrito por Carlos Fialho e  intitulado ‘Uma Grande Família’:.

“Senhoras e senhores, meninos e donzelas (todas as 6), sejam todos muito bem vindos à nação dos Potiguares, que começa “aquém, muito aquém daquela serra que não dá pra ver daqui”. Foi lá que o caçador de socós Cançado avistou a índia Hosana. Tesão à primeira vista e sem muito enfado. Naquele dia mesmo começaram a produção em série de uma enorme prole. “…corpo fértil que só a carta de Caminha, nunca se viu igual.”, conforme conta Nei Leandro de Castro, com seu jeito único de envolver o leitor, nos fazendo sentir como membros daquela família, personagens da saga, testemunhas oculares de todos os causos criados.
E do generoso ventre de Hosana, veio ao mundo Anunciada, que cresceu e se engraçou pelo tabelião Honório, homem metódico de fala difícil que fez com ela tantos filhos quanto as letras do alfabeto. Aquela turba de mestiços, de sangue indígena e luso, encheu a casa da família de alegria e confusão, cada um a sua maneira, cada um com suas doidices e mungangas, cada um com suas angústias, todos encenando a mesma história.
Em “O Dia das Moscas”, o autor narra magistralmente a divertida trajetória da formação do povo brasileiro, a história do surgimento de uma nação, um romance de maus costumes. Uma narrativa já contada e recontada, mas nunca dessa forma, não com essa inventividade. Aqui, Iracema não exibe seus cabelos negros como as asas da graúna, nem sacia nossos anseios voyerísticos com seus lábios de mel. Mas temos uma índia gorda e parideira de peitos caídos que de virgem não tem nada. Em “O Dia das Moscas”, Peri não beija Ceci, mas Hosana échamprada por Cançado ali mesmo, às margens do rio.
E assim, como quem não quer nada, divertindo mais e mais a cada página, Nei Leandro expõe os galhos de nossa árvore genealógica. Apresenta-nos uma infinidade de parentes, neo-macunaímas aos montes, heróis sem nenhum caráter, figuras ímpares e aos pares, sempre pensando numa nova artimanha, tentando ser mais espertos, cheios de malícia e safadeza, libidinosos e presepeiros.
Por isso, deixo aqui um aviso. Não estranhem se os personagens lhe parecerem familiares demais. Nei Leandro não nos fez sentir membros da família a toa. Na verdade, somos nós mesmos os personagens deste livro. E agora, vamos ao que interessa! Tenham todos uma ótima leitura e divirtam-se!”

[Carlos Fialho – Natal, julho de 2008]

ps1:. Preparem-se para muito Nei Leandro de Castro pela frente.
ps2:. Imagino que ninguém quererá ler o texto inteiro, preguiçosos.

Por hoje é isso!
Inté!

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