Entre pontos e vírgulas – O Outro Pé da Sereia – Mia Couto

‘O Outro Pé da Sereia’ de Mia Couto, pela Companhia das Letras.

Olá! Meio atrasado, voltei para contar a respeito do livro do mês de novembro do fórum literário ‘Entre pontos e vírgulas’, organizado pela Denise Mercedes do blog Meus Olhos Verdes. A proposta do fórum é debater todo o livro, soltar spoilers mesmo, e confrontar as diversas visões de todos que leram. Mas, eu já fiz isso lá no YouTube, deixei mil comentários nos vídeos do pessoal que também participou e tal. Aqui, vou contar o que achei do livro sem entregar os acontecimentos importantes, para não desagradar quem ainda não leu. Se você é um dos que ainda não tiveram a oportunidade de conhecer o Mia Couto, desembeste para a livraria mais próxima e adquira logo qualquer uma das preciosidade do autor.

‘O Outro Pé da Sereia’ narra paralelamente duas histórias. Primeiramente,  o retorno de Mwadia a Vila Longe e o reencontro com sua mãe, no início dos anos 2000. Intercalada, o transporte de uma Santa, de Goa a Moçambique, nas águas do Índico. Basicamente, simplesmente e injustamente, é isso. O  fato é que o enredo, ou a história em si, acabam não despertando tanta atenção, mas sim a enormidade de pequenos acontecimentos.  A grandiosidade do livro, na minha opinião, se encontra na narrativa. Não sei se já declarei o meu amor pela escrita do Mia Couto aqui no blog, se não, faço agora. O cara tem uma das narrativas mais envolventes que conheço, ela é altamente reflexiva, mágica e poética.

Sobre as personagens, são muitas, o que acabou confundindo um pouco a leitura, mas elas são tão bem construídas, tão simples e de cultura popular tão rica, que no final das contas, a quantidade acaba não pesando na balança. Sem falar dos seus nomes, são um espetáculo à parte. Ao longo do texto, assuntos como religião e a questão racial são constantemente abordados, além de temáticas que já vi tratadas em ‘Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra’, como a significância dos elementos água, terra, etc…. Referências ao Brasil são feitas diversas vezes, inclusive há uma personagens brasileira no texto. Os famosos trocadilhos e neologismos, característicos do Mia Couto, tomam conta do texto todo.

Da edição, conta com 336 páginas publicadas pela Companhia das Letras, logo, não há do que reclamar. Do autor, é o moçambicano mais traduzido. Ele esteve aqui em Curitiba há algumas semanas, para um bate papo com os leitores, e eu só fiquei sabendo disso depois que o evento já tinha acontecido. Sinto que nunca vou me perdoar.

ps1:. Difícil resumir a história de um livro onde tanta coisa acontece, somente lendo para ter ideia.
ps2:. O livro do mês de dezembro do Fórum é ‘Emma’ da Jane Austen, participem!

Por hoje é isso!
Inté!

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2 Comentários

Arquivado em Leituras Concluídas

2 Respostas para “Entre pontos e vírgulas – O Outro Pé da Sereia – Mia Couto

  1. Não conheço, pensei que se tratava de uma mulher “Mia” e pelo jeito que tu descreve parece ser mágico e daquelas narrativas que prende desde o inicio. Vou procurar algo dele em breve.

    • Recomento ‘Um Rio Chamado tempo, Uma Casa chamada Terra’, é melhor do que ‘O Outro Pé da Sereia’. Só p/ vc ter uma ideia da escrita do cara, deixo uma citação INCRÍVEL abaixo:

      “Meu pai conhece a história da moça do cemitério. É uma caso antigo, a menina se divergira do seu destino desde que nascera. Dizia-se, a boca curta, que ela tomava venenos. Não passava dia sem tragar uma dose. A razão desse vício? Bom, uns morrem no parto. Outros falecem mesmo antes de nascerem. Como esse meu irmãozito que nunca ascendeu á luz. Com ela tinha sucedido igual. Seu corpo escapou-se das mãos da parteira, tombando em plena areia. Foi quando do inesperado capim surgiu a cobra sombradeira. Dessas que nem necessitam de morder. Basta passar na distância de uma sombra e, em volta, as vivências descamam, definham e desfalecem. A dita serpente fez mais que passar: lhe espetou a dupla dentição e cravou nela esses líquidos que liquidam. Mas, surpresa. Pois que, nela, aquilo sentiu efeito inverso: a fatal mordedura a fizera renascer e florescer. Aquilo fora como um sopro, o beijo em sono de princesa. Dizia-se, por isso, que a mãe dela não lhe dera à luz. Dera-a à sombra. Uns choram quando nascem. Choram para aprender a respirar. Ela respirava no choro dos outros. De lhe dar o peito, a mãe adoeceu, contaminada das gosmas que seus lábios exsudavam. Vieram as tias e secaram-lhe os seios até semelharem cotovelos. Desvalida para aleitamento ela se nutriu foi de venenos. Traziam-lhe das várias fontes. Essa era a razão de seu vício. Daí provinha também a sua dificuldade em se expressar. A cobra fizera um nó na sua alma, enroscando-lhe na voz.”

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